A dor do que me falta e o desprezo do que já tenho

A dor do que me falta e o desprezo do que já tenho

Se eu soubesse a fórmula para satisfação humana, estaria milionário!

A sensação que tenho é que estamos insatisfeitos o tempo inteiro. Nada está tão bom que não possa ser melhorado! Se alcançamos um objetivo, já logo estamos perseguindo outro, e outro. O corpo sarado, o amor de cinema, a família de comercial de margarina, o carro do ano, a promoção no trabalho, mais diplomas, mais crescimento para o nosso negócio, a viagem dos sonhos, o poder, o status, a riqueza, a reserva financeira ideal, mais conhecimento… e não importa o que já alcançamos, ainda estamos sedentos por algo que nada sacia.

Reclamamos que os filhos não obedecem, que não sabemos lidar com nossos relacionamentos, que nossos parceiros não correspondem à altura. Reclamamos da atividade profissional que exercemos, do chefe, dos colegas de trabalho, do salário. Reclamamos que não temos tempo, que não temos sorte, que não temos o suficiente…

Vivemos em uma busca inesgotável por satisfação e preenchimento de um vazio, que na verdade é existencial. Deixamos de apreciar e valorizar mais o que temos, porque sempre há algo melhor, um nível a mais, uma novidade etc. que nos proporcionaria mais status, mais conforto, mais segurança e a então desejada felicidade. E essa busca não está relacionada somente aos bens materiais, mas também aos relacionamentos, a saúde, a profissão e a todas as demais áreas da vida.

A reflexão que fica é a seguinte: estamos buscando a felicidade baseados em que? No que devemos ter ou no que devemos ser?
O problema começa quando começamos a comparar nossa vida com a do outro e com o modelo de vida bem-sucedida que a sociedade idealiza. Essa comparação nos leva a acreditar que sempre há algo melhor, e que na nossa vida falta algo. O que temos perde seu valor e deixa de ser suficiente. Esse tipo de comportamento é nosso maior inimigo, pois nos leva a um mar de insatisfação e derruba qualquer chance de chegarmos ao final dessa estrada.

Dói quando definimos que o que temos não é suficiente para nos fazer felizes. Que o que temos é ruim, ou pouco. Sentir escassez, incapacidade, insegurança, dentre outros sentimentos, está relacionado a falta. A busca pelo que falta acaba sendo a resposta inconsciente para a dor da insatisfação. “Falta isso, ainda não alcancei aquilo, as coisas não andam como eu gostaria…” Dizemos para nós mesmos: “quando isso acontecer, estarei satisfeito e serei feliz”. Olhamos somente para a parte do copo que está vazia. Mudar a ótica e a perspectiva das coisas muitas vezes é necessário para viramos esse jogo. Mas nem sempre é o que fazemos. Ficamos tão focados nas respostas virão no amanhã, no que ainda não temos, ou no passado, sofrendo por acreditar que não poderemos ser felizes novamente (quando passamos por um downgrade, perdemos algo ou alguém) que acabamos por desprezar o agora e por perder a oportunidade de nos tornar quem precisamos realmente ser.

Se parássemos para avaliar o que as pessoas falam em seus leitos de mortes, entenderíamos que o que realmente importa já está disponível para nós e em nós. Não importa o quanto se conquistou na vida, no fim, as últimas palavras estão sempre relacionadas a quem fomos e como vivemos. E não ao que temos. Que o importante estava relacionado ao amor. Amor ao próximo e a nós mesmos. Que as experiências mais gratificantes estavam nas coisas mais simples, na fé, na família, no olhar, no respirar, no sol que bate no rosto, no alimento mesmo que simples, na companhia da pessoa amada, na satisfação de deixar um legado, de cumprir uma missão com um propósito maior que nós mesmos. Todos queremos uma vida repleta de realizações, mas podemos concluir que encontrar satisfação está relacionado a quem somos, como vivemos e não ao que temos.

Nossos caminhos são trilhados a partir das decisões que tomamos agora. Decidir apreciar e ter gratidão pelo hoje nos permite usufruir do tempo da melhor forma e da vida no momento que tudo realmente acontece de fato. Essa escolha nos liberta da busca frenética pelo amanhã e da prisão do passado, tira nosso foco da dor que criamos pelo que não temos e do desprezo que geramos pelo que temos, para voltar nosso olhar para dentro de nós, onde realmente encontraremos as respostas que tanto buscamos.