O que é Ayahuasca?

Ayahuasca é uma bebida feita a partir de duas plantas tradicionais da região amazônica. É uma bebida enteógena (do grego “entheogen”, que significa, literalmente, “manifestação interior do divino”), que contém uma substância chamada de DMT (Dimetiltriptamina, também conhecida como a molécula do espírito) e é estudado por diversos pesquisadores e cientistas no mundo pelo seu potencial terapêutico. Ainda que definido comumente como chá ou decocção, a ayahuasca é um concentrado, uma redução das fervuras, resultando em um líquido marrom, de gosto forte e normalmente acidificado.

É uma ferramenta para expansão da consciência, para o despertar do divino em cada ser através da elevação das percepções sensoriais, o aumento do discernimento e da capacidade de introspecção espiritual. Em outras palavras, a vivência com o chá é um mergulho dentro de si mesmo, e se destina àqueles que buscam cura interior, um encontro com sentido da vida e com sua essência original.

Qual a origem do chá?

O seu uso é identificado em mais de 70 etnias indígenas, especialmente na região dos Andes e da floresta Amazônica. Estima-se que os Incas já tomavam a ayahuasca há mais de 3 mil anos. E, através de um conhecimento que não cabe em livros, acumulado ao longo de milhares de anos, esses povos hoje ajudam os cientistas a entender melhor o potencial terapêutico desse chá que, além de ser uma alternativa psicofarmacológica cada vez mais promissora, é também um patrimônio imaterial herdado dos ancestrais ameríndios.

Seu uso expandiu-se pela América do Sul e outras partes do mundo, no início do século passado, com o surgimento de movimentos espiritualistas organizados, que uma vez conhecendo dos índios quais as plantas utilizavam para o preparo da bebida sagrada, desenvolveram fórmulas de preparados próprios, diferentes dos indígenas, para utilização em seus rituais, sendo os mais significativos o Santo Daime, a União do Vegetal, a Barquinha, além de dissidências destas e também outros grupos independentes que o consagram em seus rituais em estilos variados de crenças e ensinamentos, mas tendo como denominador comum o princípio de expansor da consciência.

O nome ayahuasca pode designar tanto o cipó Banisteriopsis caapi, quanto a bebida. Entre as traduções para esse nome, estão “cipó do homem morto” (aya significando “espírito, morto ou ancestral” e huasca significa “vinha, cipó ou corda”), “liana das almas”, “cipó dos espíritos”, “cipó da pequena morte”, “vinho das almas”. Os nomes além do significado literal referem-se a elementos de significação cultural, a exemplo de “O professor”, “planta professora”, entre outros. É também conhecida, pelos nomes: yagé, caapi, nixi, hoasca, natema, vinho da alma, abuelita, chá misterioso, entre outros. O nome mais conhecido, ayahuasca, significa “liana (cipó) dos espíritos”.

Do que é feito Ayahuasca?

Produzida a partir da infusão do cipó Jagube (Banisteriopsis caapi) e das folhas da chacrona (Psychotria viridis), a bebida indígena é uma receita ancestral. Os segmentos religiosos relacionados acima, utilizam proporções e formas de preparo diferenciados, alguns até acrescentam outras plantas amazônicas, tendo por produto final, beberagens diferentes. Assim como, utilizando-se farinha, leite e ovos, conseguimos produzir diversos produtos como pães, bolos, biscoitos, massas em geral e uma série de produtos, cada um é um produto final diferente.Pão, é diferente de Bolo que é diferente de biscoito, que é diferente de massa; Tem em essência os mesmos ingredientes, todavia, são produtos resultantes diferentes.

Sendo assim, é um erro grotesco, cometido até por pessoas bem esclarecidas, mas que infelizmente não tem conhecimento aprofundado do tema, generalizarem o chá, ou chamarem todos os preparados de “Santo Daime”. Índio não produz Santo Daime.

É preciso a ação conjunta das duas plantas (cipó e folhas) para que o efeito do chá ocorra em sua totalidade. Enquanto a Psychotria viridis possui a substância psicoativa do chá, (DMT), a Banisteriopsis caapi possui alcaloides que possibilitam a passagem e a ação desta substância no sistema nervoso central (SNC).

Ayahuasca causa vício?

Pela experiência testemunhal e também por meio de pesquisas, tem-se comprovado que seu uso não causa nenhum tipo de dependência e não há nenhum efeito prejudicial ao organismo, muito pelo contrário, seu uso medicinal ou terapêutico é cada vez mais investigado e utilizado, pelos benefícios proporcionados para a saúde física e mental se aplicado com responsabilidade. É tão seguro que está liberado até para crianças e mulheres grávidas. Seu uso é legalmente permitido no Brasil, regularizado em todo território nacional pelo Conselho Nacional de Drogas (Conad) desde 2010, quando o órgão publicou um relatório, fruto de mais de uma década de pesquisa. O Projeto de Lei 179/20 também disciplina o uso do chá ayahuasca e reconhece como entidades religiosas as instituições que o utilizam para fins ritualísticos.

Quais são os efeitos da Ayahuasca? É alucinógeno?

A bebida tem como princípio ativo o alcaloide dimetiltriptamina (DMT), uma substância encontrada naturalmente na chacrona e em diversas plantas e animais, inclusive no nosso próprio fluido cerebral. Mas apesar de ser um psicoativo potente, seus efeitos normalmente não são percebidos porque o DMT é facilmente metabolizado pela enzima monoamino oxidase (MAO). Mas quando o DMT da chacrona é misturado às beta-carbolinas encontradas no cipó de mariri, a MAO é inibida e o DMT age com mais intensidade e por mais tempo, provocando as mais diversas reações, que variam de pessoa para pessoa. Na maioria das vezes, isso inclui ampliação dos sentidos, ampliação de consciência, percepção diferente da realidade, visões de naturezas variadas, que erroneamente compreendidas como alucinações, e que nada mais são que os “estados de profecia” relatados pelo pesquisador e cientista Rick Strassman, que associa em sua pesquisa, os efeitos do DMT, com os estados em que os profetas das mais variadas tradições antigas do mundo, entravam quando tinham suas “visões proféticas”.

Em seu livro, “DMT and the Soul of Prophecy” o pesquisador Dr. Strasssman, faz a correlação das visões proféticas dos personagens hebreus, com o princípio ativo DMT, uma vez que o mesmo está presente no corpo humano, e também em todas as folhas verdes do mundo, e a mais concentrada delas é a folha da Acácia, árvore sagrada para várias tradições orientais, inclusive para os Hebreus, sendo essa a árvore que deveria ser utilizada para a fabricação da arca da aliança, através da qual, Deus falava com o povo.

Segundo o antropólogo norte-americano Gordon Wasson, considerar ayahuasca como “alucinógeno” é uma impropriedade conceitual pois a mesma não causa perda do contato com a realidade (estado alterado de consciência), mas sim um estado ampliado de consciência, ou seja, um grau maior de percepção que possibilita a compreensão da realidade com mais clareza ou transcendência. Desta forma, a classificação mais adequada para ayahuasca, segundo pesquisadores da área de etnobotânica, é de “enteógeno”, ou seja, substância que possibilita uma experiência de conexão com o divino. Essas experiências de maior autoconhecimento e o aprimoramento do ser humano através da vivência com o chá tem trazido inúmeros depoimentos de reestruturação nos vários pilares da vida e da saúde daqueles que participam.

Quais são os possíveis benefícios da Ayahuasca?

Com a vivência, nota-se o aumento da capacidade de autoanálise, autoconhecimento e resiliência para lidar com os desafios da vida. Por possuir efeitos antidepressivos, e possibilitar novas perspectivas sobre experiências antigas, favorece na dissolução de traumas, vícios e fobias, estresse e desordens do humor.
Com sua ação particular sobre o sistema de neurotransmissão serotoninérgico, envolvido em diversas psicopatologias, estudos têm apontado diversas possibilidades de usos terapêuticos da ayahuasca, em particular no tratamento de drogas de abuso e principalmente a depressão. Os cientistas têm descoberto um enorme potencial para o uso deste chá, que vai desde efeitos em nível molecular, como ações anti-neuroinflamatórias e crescimento de novos neurônios (neurogênese); até efeitos comportamentais importantes, com possibilidades promissoras no tratamento da depressão, traumas psicológicos e dependência química.

Dentre essas pesquisas, destaca-se o estudo coordenado pelo Professor Stevens Rehen e publicado na prestigiada revista Scientific Reports (2017), do grupo Nature, o qual mostrou que o DMT, substância presente na ayahuasca, foi capaz de reduzir a expressão de proteínas relacionadas à neuroinflamação e degeneração cerebral, além de aumentar a expressão de proteínas associadas à neuroplasticidade. Simplificando, a substância presente na ayahuasca tem o potencial de proteger nossos neurônios e ainda facilitar o aprendizado.

Já um outro estudo coordenado pelo Professor Jaime E. Hallak e publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria (2015), mostrou que uma única dose de ayahuasca foi capaz de exercer efeitos antidepressivos rápidos (já no primeiro dia após o tratamento) em pacientes diagnosticados com depressão que não respondiam ao tratamento tradicional.

Vale salientar que como toda ferramenta farmacológica, além dos benefícios também há os riscos (ex.: totalmente contraindicada para indivíduos com histórico de esquizofrenia e transtornos psiquiátricos diagnosticados).